Feeds:
Posts
Comentários

Desastrosamente…

Desatualizado.

Anúncios

Red, Red, Red

 

 

    Me livrei de um quilo de banha pastada. Ensopada, os tecidos grudavam em minha pele e sugavam minhas ideias. Emoções à molho pardo. Sentidos afogados nas lacunas à minha margem.

    Raiou estrada. Não era pedra, mas sim a sombra da falta em meu caminho. No intuito de preenchê-la, comi o primeiro pedaço de carne mal passada, mal pensada. Não me caiu muito bem. Percebi que meu desejo era o ar.

    A água secou e agora posso pegá-lo de jeito. O caminho está livre. Todo faltoso. Todo gostoso. O vermelho está de volta. Ele corta toda aquela banha e sua gordura torna-se abstrata, conclusiva, digerida, e dá forma a qualquer vento livre que possa me atingir.

    Cabelo solto, confortável corpo. Só eu. 

    Respiro o alívio e me brotam as ideias. Pouco a pouco, brilhando em cada ponto. Minha estrela vermelha.

 

 

ariana thinking

 

 

 

Regresso

  •  

    Enfim, dia glorioso, eis que ressurjo das trevas.

    Após semanas encoberta pela poeria cinza e insossa do cimento, duplamente colada nas sombras da incrível, oh, argamassa, sufocada por janelas e portas trancadas em defesa da irritante, porém precisa construção de pisos sobre pisos, eu me esquento largada no sol novamente.

    Desconhecidos me levaram ao pavor rodeando minha estrutura com suas vozes sem tempo, seus passos rastejantes bem marcados, ritmados, uma presença ampliada sem tonalização. Quando o eco de barulhos assombrados saltaram pelo telhado me senti em uma trama de suspense da qual meu coração tornou-se arritmado pelas estacas sonoras sem momento nem direção.

    Como é bom a alegria desmedida! Com os dentes arreganhados assisto a vizinhança. O coqueiro solitário com seus braços de polvo balançados pelo vento, folhas avermelhadas contrastando com o verde-escuro que indicam sim, independente da estação do homem, a natureza e seu outono ainda insistem. A amoreira sem amoras com suas garras secas são o repouso preferido das aves responsáveis pela suave cantoria.

    Digo um “oi” para a terra vermelha batida de longe. A casa verde limão. Ainda não chegou a hora das senhoras e suas línguas sentarem-se frente ao sol ameno e tricotarem os boatos mais quentes do dia.

    Amo você, minha varanda.

    Amo você, silêncio elegante.

    Amo você, lar de sábado. 

Laurent-Chehere-Floating-Houses

 

  • CONSUMIDOS PELO CONSUMO

   Há épocas em que nada parece mudar. Há outras em que as mudanças vêm como um desencaixe catastrófico capazes de abalar qualquer que seja a estrutura.

    O vazio, a falta, o desejo. Características intrínsecas à condição humana. Cada uma delas, se não bem direcionadas, podem aumentar a proporção de tudo o que pareça ausência.

    O desejo move a esperança, constrói metas, como uma alavanca que leva ao alvo a ser atingido. Uma busca constante pelo prazer.

    Qual o limite do prazer até que se transforme em desprazer?

    O que se faz com o desejo que não é saciado? Como preencher o vazio da vida de cada um?

    Nos tempos atuais, de um sistema capitalista veloz e voraz, o que é necessário para que a existência faça sentido, para que as relações entre pessoas ou coisas, ou mesmo pessoas como coisas, façam algum sentido? Como contornar a falta que alimenta incessantemente o desejo de satisfação?

    Quem é que pode se dizer livre diante de tantas dívidas adquiridas por um dos maiores objetos de desejo, os cartões de crédito? Crediários… Mil vezes sem juros que ao invés de dividir, multiplicam seres acorrentados?

    Vive-se uma velha nova era: a da escravidão pelo consumismo.

    O ato de comprar e consumir vem bordado de ilusões fugazes de felicidade. O apelo das vitrines chama os mais fracos, desinformados ou manipuláveis como quem diz: “Sei que me quer. Desarme-se e contemple o meu encanto. Compre a beleza que falta em sua vida! Garanto-lhe prazer, satisfação e felicidade imediatas, apesar de momentâneas. Mas não se acanhe, você merece!”.

    Esta é a palavra: momentâneo. O chamariz dos tolos do novo século.

    Milhares de pessoas voltam para suas casas com as sacolas cheias, abarrotadas, gordas de mentiras. Sorriso no rosto, um peito estufado, uma estranha alegria. Mas é como se ainda faltasse alguma coisa… Passado o momento, continuam infelizes, e ao invés de olharem para o próprio vazio escancarado dentro de si mesmas, buraco oco cada vez mais profundo, iludem-se na ideia de que ainda não possuem o necessário, já que o par de sapatos comprado no mesmo dia não veio acompanhado da cor azul petróleo, “O novo preto do mundo fashion”. Mas sim, com ele sim, virá o sentimento de completude!

    Quantos enganos, quantas mentes e corações perturbados, mascarando o vazio inerente à vida na ilusão de que ser feliz é ter, e não ser. Isso já é quase um clichê!

    Um ciclo vicioso. Insatisfatório. Prazer/desprazer: eis a sedutora armadilha do desejo.

    A inversão de valores é contínua e creio que cada vez mais devoradora. Os bens materiais adquiriram um lugar de pedestal na sociedade que, já cega e delirante, não é capaz de se desvencilhar de suas fantasias, da escravidão vendida pelos meios de comunicação, de uma auto-imagem completamente atropelada e confusa, afogada pelas inovações tecnológicas, pelas tendências da moda, pelo carro do ano, pelo que é ditado como vivo.

    Somem-se de si mesmos, consomem o que é palpável.

    As questões pessoais e existenciais não trabalhadas de forma adequada acumulam-se, assim como as divergências e inconclusões morais, socias, familiares, éticas, emocionais, ou seja, tudo o que pode conter possibilidades de colorir a vida.

    Os guarda roupas entupidos de produtos que sequer serão usados, a compulsividade obsessiva ausente de freios, na qual o único limite seria talvez o último pranto de angústia que pudesse despertar para a realidade.

    Consumismo compulsivo. As datas do calendário são as mais venenosas; quem não ganha presente, está praticamente fadado ao sentimento de rejeição.

    A questão é: o que é necessário e o que é supérfluo? Do que é que realmente se precisa para viver? Quais entulhos devem ser olhados de forma atenciosa, os que entopem o espaço externo ou os que amontoam o vazio interno?

    Talvez a questão seja outra: quem faz a diferença na vida de cada um? Enfim, o que realmente faz sentido?

    

 

 

    Desligo o vento central e aposto na vitalidade do que vem do vento sul. Como se a abertura para os sons, ruídos e cantorias do dia me dessem um aconchego e a sensação de união com tudo o que existe.

No final, a simplicidade livre da vida sossegou o que até então era desassossego, e trouxe uma alegria natural à mesa. Não houve indícios de vitórias ou derrotas, apenas o medo em sua posição mais defensiva.

    Caberá a mim decidir se me arrisco ou não a uma nova partida, repleta de incógnitas, ausente de regras, nublada por limites desconhecidos.

    Não consigo alcançar nenhuma pista ou sinal que me dê qualquer sutileza da percepção de qual será o próximo movimento. O jogo concentra-se arisco na cintura, e é baseado por uma improvisação lúdica.

    Devo me poupar da obviedade que leva à margem, contorna as possibilidades de frustrações, ou devo me aventurar um passo à frente do incerto e extremamente vulnerável? Sigo ou fujo dos meus instintos.

    É lua cheia. Sob qual ponto de vista será melhor tomá-la?

    O tempo corre, o sol transita, e não sei ainda se mostro minhas cartas, se movo minhas peças, ou se embrulho embaraçada todo o desembaralhado de uma vez.

    As roletas viram-se sobre mim e pedem uma decisão. É minha vez, está na hora, e é agora.

 

 

    

Livrando-me logo II

 

 

 

   É como se aquela estrutura tridimensional de forte afeto estivesse a ponto, no ponto para desmoronar. Sua importância não possui geometria nem palavras que possam caracterizá-la.

   Possuo uma caneca. Ela é laranja médio, média e comprida, sem muito. Não gosto de ver o café esparramado em fundo de espaço vasto; sinto-o mais de perto e mais quente quando o fundo não se apresenta assim tão largo.

   Desfruto de um filme que assisti. As opiniões a seu respeito foram divergentes. Adorei e o achei inspirador; ela o achou um simples dejeto, pedaço de defecação.

   Creio que o desfecho esteja em esperar as ondas se acalmarem até atingir o ponto passado, tampá-lo por água salgada e levá-lo para o que acolhe.

   Ela é assim. Fica assim. Não se encolhe, mas o que mostra me atinge de forma espontânea como um atrito constrangedor. Ela não esconde, mas possui um jeito próprio e único de deslizar feridas sem precisar pronunciá-las.

   Qualquer que seja a tentativa, não valerá de nada. É uma espera incômoda de que a frieza passe.

   Quando passa, o quase volta à sua normalidade. Agradar é invasivo. Desculpar-se é vergonhoso. Esconder-se é inútil. Emendar assuntos é torturante. São esferas exclusivas as da sua alma. Como o contorno cor de roxo com o qual escrevo.

   Eu tenho a chuva que bate leve no telhado. O espaço escuro ao redor é somente luz fria e solitária. Mesmo se fosse confusa em sua temperatura não me faria sentir melhor.

   Deixarei a mala abarrotada para o divã.

   Me perco em meu desejo perpétuo de isolamento após arte mal feita. Talvez se houvesse em si qualquer tipo de intenção poderia causar mais danos do que a ausência entre uma vitória infeliz de impulso.

  

   Escrevo                     agora sobre      a                                                                                     

 

luz da lua                por                    querer                

 

                 ser                    mais                                     

   intensa

mas

 

                      tenho que correr

 

para o dano causado                              cansado

 

                 na eletricidade lá de fora.

 

  

   É noite. Assisto meu vizinho através de sua brasa acesa. Será que ele me assiste através da minha? Me comunico sozinha. Olho de lado sorrateira para que ele não me enxergue. Estará ele sentindo, pensando, ou apenas respirando? Ele dá meia volta e eu continuo me comunicando comigo. Ninguém bate à porta, nem convida para a janta. Fecho minha varanda e me recolho sem números e sem preparo para a frieza já esperada, não dita e premeditada.

 

 

                                                                 

Livrando-me logo I

 

 

   Chamusquei meu extremo de uma cor sem nome. Por ser mistura em contraponto é que ainda tento dá-la algum sentido. Não sei ao certo o porquê do seu chamado, mas sei convicta de que fui buscada, encontrada, sem apanhá-la nos caminhos de qualquer certeza.

   Esta cor sem nome é viva, sem constrangimento algum, e como me convidou, também faz parte de uma exclusividade vistosa e atrativa. Escandaliza os olhos vagos, pede por sabores de ambientes de tempero largo. Ao fitá-las com grande apreço sinto alegria funda, como se estivessem a me lembrar sobre o contraste da vida.

   Talvez tenha sido tolo pretexto dizer que foram elas que me seguiram. Começo a pensar e a me impor a responsabilidade de que fui eu quem as escolhi, para que ofuscassem qualquer vestígio da dualidade entre o preto e o branco. Ambos são neutros e concentrados de sentido. Embora eu resista a qualquer argumento de que existe vida entre eles, pelo menos por agora não me trazem alegria alguma.

   Vesti roupas de décadas antigas, cheirosas por história e confortável prestígio, sem passá-las uso no agora o passado pelo qual construo meu presente. O algodão gasto sobre a pele traz-me segurança e paz de porto seguro.

   Os cabelos, presos ao mais alto do que minha nuca distinta poderia necessitar. Clamava por frescor. Implorava pelo sacudir do vento, e assim o fiz.

   As palavras soltas por um discurso aleatório e sem improvisos, verbos sem lei e sentimentos nada santos deram forma a um ensaio de vômito acanhado. Engraçado como me associando livremente dou de encontro ao inesperado e imprescindível. O que há de mais profundo, sujo e dolorosamente escondido retira-me por inteira daquele agora e me leva a outros espaços, horizontalmente enquadrada no mesmo lugar. Não há possibilidades de fuga pois a intenção não é essa, mas sim a ausência de qualquer exatidão, o contrário do oposto já virado pelo avesso. Sinto-me seguramente despida. A possibilidade do medo atravessado está de forma aniquiladora fora e além de qualquer enquadre.

   De tão grande e vasta por dentro, forte e fraca ao mesmo tempo, mas justamente pelo exagero que dilacera tudo o que é por dentro, é que preciso dos tratamentos mais densos, dos remédios mais graves, das facadas mais profundas e das agulhas mais agudas.

   Não sei respirar o meio termo. Não sou o meio. Sou equilibradamente e por inteiro do radical ao mais leve, do doce ao mais amargo. Estou sempre fincada nas alturas dos extremos. Raramente passeio pelo morno. Não considero como desequilíbrio mas sim como impulso incontrolável de pulsão pela vida.

   Se sou única por que deveria escolher qualquer metade? Não a quero, quero tudo por inteiro, gradativo de uma só vez. Talvez por isso não me encaixe em regras, pois em qualquer aspecto sou maximizada no exagero de todos os meus eus. Sou somada ou subtraída, e se multiplicada, nunca dividida. Mesmo na dúvida, ou me perco ou me encontro nas variáveis múltiplas do meu ser. O engasgo me sufoca, o sorriso amarelo me retalha, o choro engolido me contrai.

   Então me apego às possibilidades púrpuras à minha frente. Estrangulo o que é cinzento até que sua morte sangre, com o prazer de trufa estourada no meu paladar aberto.

   Uma estrada nova me sorri sincera como livro novo preenchido em branco.

   A questão não é o que me espera, mas que me esperem!

   O caminho encontra-se livre para criar-me toda, não da maneira que quiser mas através da espontaneidade do que sou.

   Já diferente. Novamente metafórica e com brilho novo de metamorfose não concluída, mas todos os dias nascida como se fosse a primeira vez.

   Lembro-me quando os rumores chacoalhavam-se doidos e entretidos pelos próprios personagens. Caíam por terra no momento em que suas bandeiras eram colocadas em questão. Tão modernos, não passavam de meninos mundanos. Tão revolucionários e adeptos à liberdade, comicamente se congelavam diante de qualquer tabu concretizado. De mãos atadas e caras tapadas, se submergiam às próprias declarações de peito estufado ruminando liberdade de expressão, e como garotos que acreditavam-se adultos em suas barbas fartas, enrolavam-se hilariamente em seu próprio machismo devorador.     

   Mentes perdidas e equivocadas, caladas por uma expressividade que não conseguia ir além de suas calças xadrez. Com seus brinquedos atraentes acreditavam mover o mundo, supunham-se artistas, esquecendo-se de uma massificação enjoativa criada por eles próprios. Quando colocados frente a frente com a repressão sexual, amedrontados refugiavam-se nos mesmos padrões que atrapalham expressões diversas, caindo no mesmo ciclo que perturba e atrasa a liberdade de ser. 

Calada Inquietude




      Uma ausência de voz humana, quase medo, quase morte. Se não fossem as brigas de um latido escandaloso contra os pássaros que ainda sobram, estremecendo-se entre o seco e o ruído do sol que salta a madeira, poderia dizer que habito no eco do silêncio.

   Seu vestido listrado não combinava com a sobriedade dos lençóis, o sutiã à mostra e os ombros ainda jovens davam um ar de tristeza e preguiça diante de tão inquieto silêncio. Qualquer palavra ali não lhe cairia bem, sua lingerie trazia uma lentidão de horas vazias com esperança minguada, horas com o desejo de que corressem o mais rápido que pudessem para que o descanso do descaso viesse de uma vez.

   O mesmo tecido após sossego cansado mostrou-se vivo novamente. No mesmo instante, porém, era a minha fadiga que não cabia ali; poderia sugar-lhe o brilho dos olhos e o sorriso espontâneo que veio em retorno.

   Reclamações veladas, que após serem refletidas mostraram-se sem sentido algum, demasiadamente melodramáticas, com um disfarce tempestuoso giravam em volta de simples chuvisco.

   Sentimentos inadequados, ausentes de pureza e candidez, ainda permeavam janelas interiores; três, exatamente.

   Não será um carinho arredio o remédio para uma antipatia de tempos antigos! Um ser que quer o bem, porém revestido de más lembranças, autoridade sem coroa.

   Vive-se o presente para que novas impressões possam ser criadas, adquire-se certa distância para que seja possível enxergar, a dor e a debilidade de uma rigidez que apenas reveste sua forma, volumosa em saudade, anemia abatida de uma mente inconfessável.

   Os momentos de paz são apenas preparativos para o próximo surto vitimado. Animalesca carência que, como criança, acredita convencer. Este silêncio insuportável, este sim, não me atrevo a quebrar. Poderá ser crime de abalar o profundo de qualquer estrutura deformada.

   Um amor fraterno ainda desconhecido, incalculável em sua imensidão e intensidade. Talvez justamente por meio da ausência, ele se mostre saudoso e imperdoável.