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Archive for julho \27\UTC 2010

Tempos de rua.

   

    Quando estava a registrar meus pequenos prazeres de lembranças oníricas em conta gotas, veio-me a invadir uma corrente de nostalgia ( que novidade!) da minha amiga de infância querida, da aurora da minha vida, que os anos já não trazem mais.

    São tantas lembranças, que guardo para mim.

    Somando os neurônios extintos e um pouquinho, só um pouquinho de neurose, um tanto bom do tipo bombom já foi-se embora.

    Ela era praticamente uma cigana, de tantas casas que já chegou a morar e que tive o prazer de visitar. Cada uma tinha o seu jeito, mas sempre o mesmo cheiro; cheiro de Kiki.

    A que considero com a de espírito aventureiro mais rechunchudo foi a dos tempos da “Colônia”.

    Tinha que pegar o ônibus de Campolide na beira da estrada, beirada de posto, vencer minha lerdeza natural e ficar atenta ao ponto de levantar e puxar a cordinha com vespas na barriga. Inevitável e cômico puxar a cordinha e não ter como sentir curiosa adrenalina.

    1, 2, 3 e já! Caminhada boa na estrada de terra repleta de pedrinhas prontas para um bom escorregão, da qual mesmo já tendo passado inúmeras vezes, nunca tinha a certeza se estava no caminho certo ( parece que nada mudou, péssimo  senso de direção, consigo a façanha de me perder em Tiradentes ).

    Medo de alguma vaca aparecer e me engolir. Medo do saci. De algum vira-lata rebelde sem mais o que fazer correr atrás de mim em alta velocidade mirando raivosamente minhas canelas fininhas.

    Para mim, tudo era uma grande floresta.

    Passavam-se algumas casas, e aquela vontade reprimida de ultrapassar como mutante os buraquinhos que restavam das grades de portões enormes…

    Muito mato, muita “áárrrvre”!!! Subida gostosa sempre com habitual expectativa.

    Essa casa era como mandioca na manteiga. Tinha direito a dois cachorros lindos e enormes, partidas de vôlei, piscina, varandinhas, churrasco e casa na árvore. E sempre um recheio bom de muita gente. Mais para frente, crescida de idade, será que era lá a mesa de sinuca??

 

 

 

 

     Pureza boba e boa em que tudo ainda era novidade.

    Mas o melhor desses tempos aconteceu na primeira das suas casas que conheci. E dessa me lembro pouco, pouco… porém, memórias adoráveis. Longas partidas de Mário Bross ( nunca passava de fase nenhuma ), o acordar com som de Música Popular Brasileira entrando pelo sono e ecoando pelos cômodos, filminho na sala escura de televisão, ” A Morte lhe Cai Bem”.

    Foi quando conheci a Polaroid.

    Amor à primeira vista.

 

   

    Que bela, que mágica, que impossibilidade acontecendo diante dos meus olhos!! Ela cuspia seu registro de forma imediata ( “Oh!” -deslumbramento- ), e ainda tinha que balançar a danada da fotografia, linda, de margens brancas com espaço para escrever ( genial! ), e claro, sempre tem a parte ruim: esperar a imagem aparecer. A parte boa: “Aaaahhhh!!”, que histeria, ela aparecia mesmo!!!

    Ainda vou te pegar, Polaroid safadinha!

 

 

 

 

 

 

 

   

    Mas, como ia dizendo, o melhor acontecia sob o sol. No meio da rua. Uma invasão de alegria. Vinha toda a criançada da vizinhança, mais os penetras, como eu, e se esparramavam em pulos, tapas, risos e bagunça adoidado. Pique-esconde, pique-altinho, rio vermelho, elefante colorido.

    Aquela loucura dominando a área. Aquela gritaria explosiva ausente de qualquer previsão futura, todos ali, presentes, contentes ou não, juntos, dando o melhor e o pior de si.

 

 

 

 

 

 

 

    Criança brincando na rua.

    Atualmente, pouco se vê.

    Hoje devem estar todos por aí, uns sobrevivendo, outros apreciando a vida. Uns como ovelhas em massa acomodadas seguindo o rebanho automático, outros como cavalos selvagens galopando em busca de alguma forma, algum tipo, alguma faísca que seja de liberdade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Banho é bom.

   

   

    Confesso ter certa preguiça em tomar banho.

    Não, não é porqueira, bem, é pre-gui-ça!

    Prazer X Desprazer, Verão X Inverno.

    O problema em comum que me irrita é o velho sedutor barato, o desejo de ficar eternamente debaixo do chuveiro, na ilusão de que se está sob uma cachoeira de esmeraldas.

    Na verdade, a dificuldade insuportável começa nas particularidades dessas duas estações inf(v)ernais. É simples.

     Verão –  vontade obsessiva de se banhar de meia em meia hora, sendo que o sofrimento maior está estantaneamente ligado após o chuveiro ser desligado: suor imediato já esperado.

     Inverno –  completa ausência de tal vontade. O sofrimento é duplo. Encaranga-se de frio antes mesmo de tirar a primeira peça de roupa, e bate-se o queixo freneticamente só de pensar que não se tem todo o tempo do mundo para ficar ali no abraço gostoso, tão amoroso, com todo aquele esquecimento e segurança que uma água quentinha pode proporcionar. Levando-se em conta, claro,  quando a bendita da água dá as caras, ou quando o chuveiro vale nada  está de bom humor.

    Sem contar o desperdício de água.

    Mais ainda a conta de luz matadora por vir.

    Porém, durante o banho de hoje, veio como martelada em minha mente uma canção alegre e feliz.

    Tão alegre e feliz que me deu toda a força que eu precisava para enfrentar esse obstáculo diário.

    Para aqueles que já assistiram o bom e velho ” Rá-Tim-Bum”. Ou para queles que simplesmente se indentificam.

    Bom, eu indico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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     Você, acredita em fadas, príncipes? Em mundos encantados? Em magia, amor, amizade, tratamento cinco estrelas, tudo isso de graça?? E em percepções atenciosas leves e presentes, sem pedidos em troca?

    Pois eu sempre acreditei, mas nunca havia vivenciado acolhimento farto de tal maneira.

    O que registro aqui diz respeito a outro ambiente, a seres diferentes. 

    Trata-se de sinceridade em pequenos gestos, que de tão simples e espontâneos tornam-se um gigante de raro afeto, queda d`água inspiradora vinda de fonte calorosa.

    Sempre sonhei com a existência de fadas com asas de vitrais em aquarela. Porém, sempre tive a certeza de tamanho absurdo exotérico, místico, psicodélico; deliciosa fantasia.

    Sempre acreditei na existência de príncipes, mas a vida me fez enxergar que não passavam de invenções tolas de contos para crianças.

    Tive a graciosa oportunidade de novos horizontes e falsas certezas.

    Apaixonada assumida por surpresas.

    E em Strawberry Fields? Você acredita??

    ” Let me take you down
      Cause I’m going to
      Strawberry Fields
      Nothing is real
      And nothing to get hung about
      Strawberry Fields forever…”

 

    Pois estive por lá!!!

 

    O caminho era flutuante.

    O branco envolvia o ar enquanto meus pés andavam ligeiros sobre pastilhas coloridas que penetravam em meus olhos estarrecidos.

    Vejo a porta, espelhada, que refletia minha aterrorizante discrepância. A linha de São Jorge me avisava cautela respeitosa, de um lugar singular.

    Entorpecida, não sei quando se deu a magia.

    Um príncipe ( ! ) árabe ( ? ) me abre a porta, com sorriso de saudade.

 

    Parece ter vindo de terras distantes, de mares nunca dantes navegados…

    Seus cabelos eram anelados, e sua fisionomia, séria e misteriosa. Um tanto quanto impenetrável. Tinha a sensação de que já nos conhecíamos, mas estava diante novamente do desconhecido; bem, um príncipe! De repente, como um susto em surto, mostrava seu outro lado: caretas e palhaçadas. Imprevisível para mim.

    Sua barba era ruiva e farta, diferente dos outros príncipes. Sua postura, altiva.

    Percebi que tinha gosto em me dar tapas na cara. Sorte a dele que aprecio uma boa surra.

    Me olhava sério. Como se soubesse todos meus segredos. Como se soubesse meu passado. Como se me despisse da carne e visse sem esforço todas as perfurações do meu espírito. Como se, de alguma forma, exergasse minha dor. 

    Entro na casa e meu nariz logo se entope de um aroma de lar cuidadosamente bem cuidado.

    Ai! Ai, que riso! Ai, cacete ( ops! ), mais uma surpresa!

    Uma fada?? Sim, oras, ela era brilhante!!

 

 

    Mas me contaram que príncipes se casavam com princesas…

    Ai, essa modernidade!

    Ela vestia roupas de guloseimas e às vezes trocava seus vestidos de açúcar cristal por outros, feitos de listras de pirulitos coloridos ou cores tutti frutti.

    Me recebeu à la Dona Benta. Na mesa de loças mágicas e guardanapos coloridos quadriculados em xadrez rosa e branco branco e azul, ofereceu-me apetitosa canja de galinha que aquece o coração, e bolo de chocolate com calda de cacau de textura gorda que gruda na boca e me fez voltar a ser criança.

    De “pirim” em “pirilimpimpins” vinha com geléias de morangos frescos colhidos do campo e pastas de amendoim.

    Nunca tinha conhecido uma fada antes.

    Sua pele era de pêssego. Suas mãos luz cor de rosa. Seus cílios eram postiços naturais, e suas sobrancelhas feitas por pincel certeiro. Tinha tinta verde nos ombros.

    Depois de boa prosa, descobri que veio diretamente da Candy Land!!!

    Olhos de fada são impossíveis de serem descritos. Viram finos fortes riscos pretos apertadinhos quando sorri. Se espremem nos cantos e continuam vivos por todo o resto.

    Ela agrada porque gosta.

    De tanta alegria e conforto de vez em quando me sentia desconfortável.

    São seus feitiços.

    Certo dia acordei com bolinhos de chuva recheados com banana.

    A casa encantada de Strawberry Fields, onde moram um príncipe e uma fada, é iluminada por luzes florais, e carregada de tanto aconchego que eu chegava a ficar sem graça. Ao mesmo tempo, cheia dela.

    Cada momento era recheado de cupcakes sabor de emoção com paradoxo.

    ( Irritante desejo de choro ao sentir exagerada explosiva felicidade. Arrggh! )

    Colheres anatômicas, sopas de abóbora com imagem e ação, bambus, violetas e ametistas, livros e cultura, conversa, filmes e muito riso, cobertor verde-água, origamis estampados, cortinas de plástico de bolinhas preto e branco que formadas se desmanchavam para se formarem novamente de outra forma diferente, estrelas rendadas brilhantes, luminárias alienígenas, sapatos na porta ( como são inteligentes! ), almofadas, um milhão de canecas, uma tartaruga, bom dia e boa noite, chás de cereja.

    Em certas horas me sentia encharcadamente contida por uma vontade de sair correndo de toda aquela magia.

    Talvez pelo fato de nunca ter entrado em um lar encantado antes. Talvez por nunca ter sido tratada de forma tão encantada por todo este.

    Falta de costume de tamanho acolhimento sem tamanho, carinho e amor sincero.

    Isso é temporada em Strawberry Fields. Nothing to get hung about.

 

    Obrigada, Fada Tutti Frutti.

    Obrigada, Príncipe das Arábias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rumo ao porto seguro.

    Destino: Pirassununga, Anhanguera, Km 330. Terra onde o peixe ronca.

    Antes, parada em Campinas, 06:20h.

   

    Como boa caipira, sinto um leve mas emocionante frio na barriga ao saber que chegou a hora de enfrentar coisas relativas às capitar.

    Desço do ônibus aos cambaleios e tropeços, bêbada, chapada, mamada de sono, ou da falta dele, ou de repente de  três Rivotril na cabeça, mesmo já tendo previsto que meus olhos permaneceriam insistentemente estalados durante todo o percurso da madrugada.

    O que dói mais neste sofrimento que a insônia me traz é perceber que todos à minha volta estão dormindo como se nunca tivessem acordado, desmaiados em estado mortificado, aos roncos, babas e bufadas, enquanto eu vou ficando cada vez mais mal humorada, encarangada de frio, me animalizando de inveja dos meus companheiros de viagem, blasfemando, xingando, sendo partida em frustrações por estar a dez horas na tentativa desgastante de me concentrar para alcançar meu tão desejado objetivo de descanso.

    Agora sim, lascou-se.

    A-HA!! Mas não contavam com “minhas túcia”!!! Como minha bolsa parece mais a da Mary Poppins, visto assim minha capa de She-Ra  e carrego com toda a força de seus poderes duas malas gigantes, uma em cada mão, mais uma bolsa tiracolo acompanhada de mochila peso pesado nas costas.

    Mas a lascada não é pelo fato de ter de carregar tantas malas armadas de exagero, pois afinal, tratando-se de mim, como poderia ser diferente? O “lascou-se” se refere à minha visão primeira: quanta luz, quanta gente… quanta alegria?? Um campo vasto de espaço que não se acaba, uma imensidão de seres de todos os lugares, planetas, galáxias, uma infinita onda de placas, informações, escadas rolantes, ilhas de café e rosquinhas, bancas de revista com adesivos baranguérrimos pregados nas portas, bibelôs de se dar medo, apitos “dim-dom, atenção passageiros”, coxinhas, todos parecendo ter completa noção e certeza do que fazer e para onde ir, e eu, perdida de se rir, correndo desesperada com olhar fixo e assassino no único carrinho de bagagem disponível ao longe, igualzinha àquelas mulheres malucas afoitas que se debatem ao entrar numa loja de liquidação. Mas, enfim, consegui o único e por isso mesmo o mais precioso. Respiro fundo considerando-me vencedora.

    E vai pra lá, vai pra cá, volta e meia, meia volta, rodo, olho para cima. Abismada com a rodoviária que mais parece um shopping, finalmente, aquele estrondo estalado: TCHÁÁ!! Estava demorando para eu bater em alguém, em outro maldito carrinho, derrubar suas malas, e todas aquelas toneladas de olhos se voltarem para mim. Surpresa, desculpas, sorriso farto e rasteiro, saída bagunçada de vergonha e gargalhada contida.

    Tudo muito rápido, “fast-tudo”, não há tempo. Preciso ir ao toilette ( hmm, fina!), mas também preciso comprar a passagem, mas também minha lombriga grita aos berros por um café, enquanto descubro que preciso fazer uma verdadeira viagem à pé para chegar a cada um desses lugares.

    Escolhi o toilette.

    Já esperava que teria de pagar caro por isso, mas nunca iria imaginar que para me aliviar de tão primitiva nescessidade fisiológica e proteger minha bagagem teria que pagar R$3,00 por cada uma delas! O quêêêêêêêêêêêê?????

   

    Não mais chocada, agora revoltada. Então tenho que confiar numa mulher que nunca vi na vida, com aquela cara de quem comeu e não gostou, e acreditar com toda a fé que ela irá vigiar minhas malas enquanto vou ao maldito toilette, claro, levando comigo a bolsa e a mochila peso pesado, pois, qualquer eventualidade, pelo menos ainda fico com minhas calcinhas. O mais impressionante foi o modo como a mulher mudou sua expressão facial de quem comeu e não gostou para cara de bunda ao ver meu queixo caído e minha revolta por tamanho absurdo, em milésimos de segundos.

    Tudo bem, eu confio em você, mulher, você não tem culpa de nada. Imagino como deve ser chato ficar sentada o dia inteiro bem no meio de dois banheiros, girando roletas e suportando com toda a educação que ainda lhe resta esse povo do interior que não sabe nem se entrega as pratinhas na sua mão ou se enfia uma ficha num pedaço de metal que roda. Bananas, pamonhas.

    Mas vê bem, meu bem, que direito esses prepotentes tem de só porque somos jecas nos tratarem como idiotas? Que eu saiba uma coisa não tem nada a ver com a outra.

   Mesmo depois de tantos foras, ecos e vácuos, há sempre um “gran finale”:

   Caipira: – Oi, moça! Por favor, como eu faço para chegar na plataforma dezessete??

    Só que dessa vez, não mais como uma simples idiota, a arrogância personificada responde com o tom mais irônico e sarcástico possível, estendendo o braço e indicando com seu dedo indicador invisível,  paulatinamente, como se agora eu tivesse sofrido uma pancada cerebral:

    Prepotência personificada: – Olha, tá vendo ali? Se-te, oi-to, no-ve, dez… de-zes-seteeeee!!!!!!!!

    (sorriso perverso)

    Tudo bem, sua babaca, quem vai curtir a estrada sou eu. Bye, bye, honey!!

    E são por coisinhas assim, pequenas, que não entendo essa tal de cidade grande, e tenho graves suspeitas a respeito deste lugar.

    Uns fingem que não te ouvem, outros não fingem mas também não fazem a menor questão de lhe responder. Cara-de-pau? Falta de educação?? Ou será simplesmente ( e isso é simples, por acaso?) o modo como a metrópole tolhe e talha, gradativamente, de pedacinho em pedacinho, o que restava de gentileza?

    O Profeta, querido, estava certo.

   

    De todos os que tive contato, apenas o cara simpático do elevador parecia ter conhecimento de tamanha virtude.

    Realmente, é difícil. Se alguém é recebido de maneira não muito gentil, o que se pode esperar como resposta? Quem sabe uma reação correspondente à tal ação lamentável? Não são todos que discordam do “olho por olho, dente por dente”… Gentileza Gera Gentileza. Se não há gentileza, que se tenha a sorte de estar a frente de alguém com o mínimo de inteligência e sensibilidade.

    É o mundo que anda hostil? Ou serão meus olhos que podem estar feridos?

    De qualquer forma, não descarto a possibilidade de que muitos de nós, reles animais humanos, andam sim, contaminados pela hostilidade.

    O mundo continua o mesmo. A Natureza está aí. Bela, perfeita, cheia de magias sutis, em plena e constante harmonia. Somos apenas uma pequena partícula desta força grandiosa. E por fazermos parte desta Força, também somos grandes, em eterno processo de construção e reconstrução, únicos e insubstituíveis.

    Sempre é tempo de mudar.

 

   

 

 

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Despertando em furtacor.

 

     

    Abro os olhos e sou presenteada por uma teia mágica de feiches solares, em que minúsculos vaga-lumes furtacor cor de prata sussurram como se disessem “bom dia”, e espontaneamente se pôem a bailar; sem pressa, com magnífica e harmoniosa desordem, celebrando assim a linda manhã que se anuncia.

    Nada como ficar estonteada contemplando essa poeirada brilhante sem juízo, esvoaçante, que só obedece a si, colorida pela luz do sol que invade delicadamente o vidro da minha, da sua, de qualquer janela, que, mesmo estando fechada, encontra-se pronta para receber de boca aberta, a beleza do mundo.

    ( Por que razão ainda acredito que conseguirei pegar alguma delas?)

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Anjinho fajuto!

    Criança gosta de guaraná e cuspir no lixo.

    Pelo menos a que vi de cachos enfeitados por fios de anjo.

    Mas acho que de anjo, só mesmo os fios.

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    Não estou nem aí para a Copa do Mundo.

    Não estou nem aí para o Brasil na Copa do Mundo.

    Não faço a mínima questão de que o Brasil saia como vencedor. Na verdade, torço para que a seleção perca logo para que essa palhaçada termine o mais rápido possível.

    Pode me chamar de chata, velha, ranzinza, anti-patriota, o que preferir. Pode me chamar de tudo o que quiser, mas de anti-patriota, não.

    Pelo simples fato de amar este país, sua cultura, sua música, seu povo, me recuso a entrar nessa festa.

    Um dos problemas é que me parece que de quatro em quatro anos o brasileiro torna-se mais idiota.

    Acreditam com toda a convicção possível de que toda essa mobilização é uma bênção para a economia do país, pois agora abrem-se portas para o comércio informal, há espaço para a novidade; são incontáveis bonezinhos, esmaltes, camisas, buzinas, fitas, tintas, perucas, pulseiras, bandeiras, balões, enfim, todo e qualquer acessório que esteja de acordo com a atual moda verde-amarela.

    Realmente me impressiona tal contradição; bonezinhos vendidos a rodo enquanto todo o comécio vibra por estar de portas fechadas. Mas tudo bem, tudo beleza, tudo muito sussa, seleção no campo é certeza de feriado nacional.

    O que chamo de palhaçada me remete mais àqueles palhaços tatuados tenebrosos que promovem o terror do que qualquer tentativa de riso.

    Por acaso já sentiu alguma semelhança entre o pós-jogo nas ruas e o carnaval? Bom pra você. Bom pra mim também que fico em casa, protegida do delírio coletivo.

    Toda essa introdução embriagada por uma leve mistura de leréia com indignação foi propositalmente e descartavelmente colocada para expressar minha postura resistente contra essa fuga vazia.

    Portanto, decidi que, ao invés de me juntar ao “todos pela copa”, ou às “cervechadas” que parecem ser mais queridas e esperadas do que a própria vitória brasileira, usarei meu tempo vago proporcionado pelos feriados “patriotas” para realizar algo de útil.

    Para mim.

    Só para mim.

    Enquanto tantos vibram por centenas de animais humanos milionários correndo atrás da, oh, poderosa Jabulani, eu invisto em mim. Do jeito que preferir. Faço, assim, minha própria festa.

    E assim se sucedeu, meu dançante sonoro artístico expressivo espiritual protesto, em silêncio.

    Tentei, primeiramente, a receita “Silverchair no talo”. Mas não me trouxe alegria.

    Procurei concentrar-me nas minhas raízes.

    Feito! Perfeito!

    Uh, uh, uh, que beleza… beleza toda, inteira.

    Maracatu Nação Estrela Brilhante de Igarassú.

    Baque virado peculiar.

    Sinto a força da marcação, a energia do tambor, todo o recheio sonoro, todo o canto sentido de completo sentido penetrando sem pudor cada partícula do meu refúgio.

    Deu-se então cheiro de “cravo de rosa, flor de laranjeira”. Sim, Virgem do Rosário, minha casa cheira.

    Sinto-me irresistivelmente seduzida por uma força criativa que se espalha de forma tão espontânea e natural que logo preenche qualquer espaço vazio. Da mente, do corpo, espírito, da vida.

    Não ouço mais vuvuzelas. Apenas o pulsar de mim.

    Fogo e açúcar para as crianças. Dança, batuque, riso e cantoria. Magia.

    Outra criança põe-se a rodar. Em seus rodopios louva a graça de tudo o que é oculto a nossos olhos terrenos.

    Galinhas dangolas brancas pintadas em avental vermelho dos tempos de infância. Saia rodada. Pés descalços. Cabelos a despentear. Olhos coloridos por mais brilho do que o brilho posto da cor do céu. Essência de maçã.

    Em cada canto, um canto. “É de Santo Cosme e São Damião…”

    Só faltou o guaraná. Como consolo, cultura afro-brasileira  e lembranças de Recife.

    Saravá!!

    Mauricéia. Alto Zé do Pinho. Nação estrela Brilhante. Família. Sempre, sempre, volta e meia invade meu mar de lembranças. Grata por tudo, f igura lindíssima. carinhoso, atencioso, cheio de vida. Salve, salve, Mauricéia!! Salve, salve, Recife!!!

    Dessa forma, agradeço a ti, Brasil em plena copa, por me proporcionar momentos breves e eternos de intensa felicidade. Assim, graças a ti, Brasil, saio da rotina.

    Vem comigo??

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                  

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