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Archive for janeiro \14\UTC 2012

Cores Sóbrias

      

   

   Do certo ao incerto sinto a incerteza da felicidade por ser composta de momentos. Não é como o morro branco em que vejo suas delimitações escuras claramente , e sentindo seu cheiro de chuva posso afirmar que sua dimensão mudará pois chegará a mim.

   Pudera eu agarrar os momentos de esperança e como gosma orgânica levá-los comigo junto às entranhas, para que pudessem se fazer eternos. 

   As conquistas da vida nova são embrenhadas por uma solubilidade da qual não posso omitir a dúvida de que tudo o que é bom, sinto como belo demais para ser verdade, como se não fosse merecedora dos beijos da lua e da sexualidade das estrelas.

   Uma espécie de esperança doída me toma logo após a mínima das vitórias. São tantas feridas escolhidas, tantas mortes vividas, dores sentidas e buracos profundos imersos em mim que por impressões tolas escuto sussurro estúpido, dizendo que a glória está contada, e que as pragas rodam em volta vorazes em destruir meus brotos prontos para o novo amanhecer.

   E ao invés de pular risonha e gritar possessa de alegria, me enobrecer pelo voo bailado em rabiolas que agradavelmente insistem em me seguir, penso: “Será que poderei viver novamente?”

   Depois de todo o sangue grudado em minha boca pelo próprio punhal, tantos atos tormentosos e desvairados por puro e impuro desrespeito à beleza da vida, pela minha condição frágil de extrema brevidade, torna-se difícil entender o inexplicável, as chances de gotas gordas que caem de onde não posso atingir.

   Tento conter meu encanto e desconto em meu pranto, racionalizando emoções brilhantes para que fantasiosas expectativas não quebrem minha cintilância. Mantenho-me vidrada sobre minha paleta de cores pois sei da sua solidez. 

   Aquela carne que me proporcionou a vivência de um amor incondicional, duvidou da minha objetividade ao dizer que não bato bem da cabeça, assim como do meu conhecimento concreto ao desenhar uma estranha ironia, esquecendo-se por segundos de que tal chaga também faz parte de minha completude. Rimos então da comicidade do que é subjetivo.

   A imposição de um passado em trevas escurecido por pincel grosso e negro ainda embaraça uma construção de histórias ricas em tela branca, pronta e aberta para qualquer ritmo desde que seja dos mais fortes.

   Estimo o desconhecido da busca, a sedução do desejo, o prazer da corrida, a explosão do que estremece o corpo e bombeia o coração. 

   Como me proteger sem minha armadura, mesmo que açucarada? Como me desarmar após tantas mutilações assimiladas; meu sorriso inocente e sincero vencerá o mal disfarçado, sem face e sem forma?

   Minha cota de lances ao abismo já chegou ao fim. Não posso mais adquirir dívidas pois o tempo corre, e minhas lutas em pontas de faca não admitem mais o desgaste do pagamento.

   Sabendo que o sofrimento é evidente e inerente à existência, seria de tamanha burrice buscar a imbecilidade de prazeres fugazes, de desprazeres salientes que colam à alma.

   A cada dia são vinte e quatro horas de policiamento. Vinte e quatro horas de espetáculos gratuitos.

   Cabe à minha inteligência dada por méritos momentaneamente esquecidos deliciar-me com o show da vida, enriquecer-me com o som da brisa, maravilhar-me com criações e criaturas; ou enovelar-me nos gemidos da angústia funda de profundidade profunda, das escolhas amargas revestidas por ouro velho.

   Alimentarei-me, então, do seio dos sonhos, celebrando as labaredas ou os petiscos de cada risco.

 

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Morangos nas Paredes

   

   Vida pulsante são surpresas feitas de trocas.

   Conhecidos e cada vez mais surpreendentes, os habitantes de Strawberry Fields passaram por aqui.

   Sim, o mesmo príncipe de luz misteriosa e barba farta, acompanhado do aconchego e saltos da Fada Tutti Frutti.

    Das arábias o príncipe cresceu, e em gigante abraço acolhedor seus braços chegaram até meus tornozelos fazendo tremer meu coração. Quem antes era a fada de Candy Land, ainda continua com seus olhos apertados de magnetismo bem marcado e magia suave. Agora, mais majestosa, se despiu dos açúcares e veste coroa de flores. Me levantava deixando pernas pelos ares, balançando-me como criança.

    Trouxeram risos de estrelas e deixaram saudade de grama fresca. Conversas sobre o novo mundo e cafés com meladas panquecas. Especiarias em tom azul-royal e aroma do desconhecido.

    Gargalhadas fartas de gorgonzola e pera ralada, irreverência da mesma essência e individualidades virtuais.

    Presumo que o príncipe tornou-se imperador de lentes mais profundas e minuciosas, enquanto sua fada, preservando a graça dos campos de morangos e as estripulias de Candy Land, agora se veste de rendas, e possui, através das pálpebras rosadas, brilho de rainha.

    Seus corpos estão marcados por uma singularidade simbólica que não permite ser invadida.

    A rainha, de espontaneidade expressiva, não perdeu seus encantos de fada doce bordadeira. Me ensinou a estourar cacau trufado como o paraíso; pela boca deleitei-me deixando que o sabor alegre me levasse a dimensões cobertas pelos sentidos, escorregadios pela garganta, mostrando assim que o prazer momentâneo pode não ser acompanhado pelo desprazer, e sim de acréscimos de vida.

    Ainda existe e é implícita em mim a distância entre a novidade de seus universos estáveis e minha bolha cor-de-rosa, que de quando em quando, registrado e arquivado no momento passado, se explode em mundos inabitáveis e sem espaço para o que é belo, leve e sensível.

   Vejo que as camadas de seus campos não se diferem tanto das minhas camadas flutuantes em meio às ponderadas frestas das minhas janelas. Mesmo com toda a magia, também se seguram, buscam o céu dos sonhos, se fragilizam pela condição humana e desejam a corrida incessável pelo amor expansivo e a autenticidade,  na conquista das possibilidades tão desejadas. 

    Strawberry Fields combina com meu sorriso resgatado, com minhas risadas suadas sem tempo, com minha estranheza marcada pela mutação imprimida, com a busca pelo sol e a caminhada bruta. Reinos distantes tão diferentes, e em meio a costuras, tão semelhantes.

   Da partida voltou-se o silêncio manso, a calmaria embriagada pelas ruas vazias, a rotina das rabiolas perdidas, o algodão solto na pele, o falatório mudo de mulheres vividas ao por-do-sol, o pequeno conjunto de louças para lavar, a paz inquieta da vivência do hoje e da esperança pelo amanhã. O sono saciado da tarde, o canto dos pássaros ao ouvido, a varanda refletida pela música do interior.

   Que eu possa ter acrescentado qualquer cor de minhas feridas a tamanho encanto.

   Até breve, Strawberry Fields.

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Decolando

   O tempo dos bailes celestes chegou novamente. Sinto de mansinho e pouco a pouco vou entrando na dança. As cores ventam, o riso corre. A paz convida, e o que é sensível renasce. A esperança floresce, o doce escorre como mel.

   E o que tenho feito dos meus dias? Respirado fundo para retomar o fôlego. Tento viver. E se consigo êxito tento viver de forma decente.

   Às vezes as mais belas valsas também ficam presas em sua própria energia. Enquanto à direita a densidade é negra e profunda, a esquerda se converte em convite à leveza e ao azul de vôo livre.

   E de presente, de surpresa, surge o sol no filete do céu, e  doura a esperança de uma nova dança.Esforço-me para esquecer as cinzas bruscas do passado, enquanto me revivo e me revolto em fruta doce e madura.

   Há de se garimpar muito bem as feridas da vida. Ter vista limpa para sentir minúsculas jóias que desenrolam os fios de uma coreografia ainda esboçada.

   Há quem seja feliz com tímido osso. Há quem não se contente com a carne farta.

   No fim, o desespero é apenas desperdício, pois o lado  denso e negro agora, agora mesmo, numa simples piscada, já se moldou em arco de todas as cores. O vento leva a nuvem pesada, e dá espaço à beleza pura criada.

   E com as cores vem a calma, e após a calma segue a sabedoria de que a mudança é constante, e que pode-se sim ter confiança e se jogar ao vento. Não há como cair. Apenas pegar outra estrada.

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