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Archive for abril \09\UTC 2012

Livrando-me logo I

 

 

   Chamusquei meu extremo de uma cor sem nome. Por ser mistura em contraponto é que ainda tento dá-la algum sentido. Não sei ao certo o porquê do seu chamado, mas sei convicta de que fui buscada, encontrada, sem apanhá-la nos caminhos de qualquer certeza.

   Esta cor sem nome é viva, sem constrangimento algum, e como me convidou, também faz parte de uma exclusividade vistosa e atrativa. Escandaliza os olhos vagos, pede por sabores de ambientes de tempero largo. Ao fitá-las com grande apreço sinto alegria funda, como se estivessem a me lembrar sobre o contraste da vida.

   Talvez tenha sido tolo pretexto dizer que foram elas que me seguiram. Começo a pensar e a me impor a responsabilidade de que fui eu quem as escolhi, para que ofuscassem qualquer vestígio da dualidade entre o preto e o branco. Ambos são neutros e concentrados de sentido. Embora eu resista a qualquer argumento de que existe vida entre eles, pelo menos por agora não me trazem alegria alguma.

   Vesti roupas de décadas antigas, cheirosas por história e confortável prestígio, sem passá-las uso no agora o passado pelo qual construo meu presente. O algodão gasto sobre a pele traz-me segurança e paz de porto seguro.

   Os cabelos, presos ao mais alto do que minha nuca distinta poderia necessitar. Clamava por frescor. Implorava pelo sacudir do vento, e assim o fiz.

   As palavras soltas por um discurso aleatório e sem improvisos, verbos sem lei e sentimentos nada santos deram forma a um ensaio de vômito acanhado. Engraçado como me associando livremente dou de encontro ao inesperado e imprescindível. O que há de mais profundo, sujo e dolorosamente escondido retira-me por inteira daquele agora e me leva a outros espaços, horizontalmente enquadrada no mesmo lugar. Não há possibilidades de fuga pois a intenção não é essa, mas sim a ausência de qualquer exatidão, o contrário do oposto já virado pelo avesso. Sinto-me seguramente despida. A possibilidade do medo atravessado está de forma aniquiladora fora e além de qualquer enquadre.

   De tão grande e vasta por dentro, forte e fraca ao mesmo tempo, mas justamente pelo exagero que dilacera tudo o que é por dentro, é que preciso dos tratamentos mais densos, dos remédios mais graves, das facadas mais profundas e das agulhas mais agudas.

   Não sei respirar o meio termo. Não sou o meio. Sou equilibradamente e por inteiro do radical ao mais leve, do doce ao mais amargo. Estou sempre fincada nas alturas dos extremos. Raramente passeio pelo morno. Não considero como desequilíbrio mas sim como impulso incontrolável de pulsão pela vida.

   Se sou única por que deveria escolher qualquer metade? Não a quero, quero tudo por inteiro, gradativo de uma só vez. Talvez por isso não me encaixe em regras, pois em qualquer aspecto sou maximizada no exagero de todos os meus eus. Sou somada ou subtraída, e se multiplicada, nunca dividida. Mesmo na dúvida, ou me perco ou me encontro nas variáveis múltiplas do meu ser. O engasgo me sufoca, o sorriso amarelo me retalha, o choro engolido me contrai.

   Então me apego às possibilidades púrpuras à minha frente. Estrangulo o que é cinzento até que sua morte sangre, com o prazer de trufa estourada no meu paladar aberto.

   Uma estrada nova me sorri sincera como livro novo preenchido em branco.

   A questão não é o que me espera, mas que me esperem!

   O caminho encontra-se livre para criar-me toda, não da maneira que quiser mas através da espontaneidade do que sou.

   Já diferente. Novamente metafórica e com brilho novo de metamorfose não concluída, mas todos os dias nascida como se fosse a primeira vez.

   Lembro-me quando os rumores chacoalhavam-se doidos e entretidos pelos próprios personagens. Caíam por terra no momento em que suas bandeiras eram colocadas em questão. Tão modernos, não passavam de meninos mundanos. Tão revolucionários e adeptos à liberdade, comicamente se congelavam diante de qualquer tabu concretizado. De mãos atadas e caras tapadas, se submergiam às próprias declarações de peito estufado ruminando liberdade de expressão, e como garotos que acreditavam-se adultos em suas barbas fartas, enrolavam-se hilariamente em seu próprio machismo devorador.     

   Mentes perdidas e equivocadas, caladas por uma expressividade que não conseguia ir além de suas calças xadrez. Com seus brinquedos atraentes acreditavam mover o mundo, supunham-se artistas, esquecendo-se de uma massificação enjoativa criada por eles próprios. Quando colocados frente a frente com a repressão sexual, amedrontados refugiavam-se nos mesmos padrões que atrapalham expressões diversas, caindo no mesmo ciclo que perturba e atrasa a liberdade de ser. 

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