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Archive for junho \17\UTC 2012

Regresso

  •  

    Enfim, dia glorioso, eis que ressurjo das trevas.

    Após semanas encoberta pela poeria cinza e insossa do cimento, duplamente colada nas sombras da incrível, oh, argamassa, sufocada por janelas e portas trancadas em defesa da irritante, porém precisa construção de pisos sobre pisos, eu me esquento largada no sol novamente.

    Desconhecidos me levaram ao pavor rodeando minha estrutura com suas vozes sem tempo, seus passos rastejantes bem marcados, ritmados, uma presença ampliada sem tonalização. Quando o eco de barulhos assombrados saltaram pelo telhado me senti em uma trama de suspense da qual meu coração tornou-se arritmado pelas estacas sonoras sem momento nem direção.

    Como é bom a alegria desmedida! Com os dentes arreganhados assisto a vizinhança. O coqueiro solitário com seus braços de polvo balançados pelo vento, folhas avermelhadas contrastando com o verde-escuro que indicam sim, independente da estação do homem, a natureza e seu outono ainda insistem. A amoreira sem amoras com suas garras secas são o repouso preferido das aves responsáveis pela suave cantoria.

    Digo um “oi” para a terra vermelha batida de longe. A casa verde limão. Ainda não chegou a hora das senhoras e suas línguas sentarem-se frente ao sol ameno e tricotarem os boatos mais quentes do dia.

    Amo você, minha varanda.

    Amo você, silêncio elegante.

    Amo você, lar de sábado. 

Laurent-Chehere-Floating-Houses

 

  • CONSUMIDOS PELO CONSUMO

   Há épocas em que nada parece mudar. Há outras em que as mudanças vêm como um desencaixe catastrófico capazes de abalar qualquer que seja a estrutura.

    O vazio, a falta, o desejo. Características intrínsecas à condição humana. Cada uma delas, se não bem direcionadas, podem aumentar a proporção de tudo o que pareça ausência.

    O desejo move a esperança, constrói metas, como uma alavanca que leva ao alvo a ser atingido. Uma busca constante pelo prazer.

    Qual o limite do prazer até que se transforme em desprazer?

    O que se faz com o desejo que não é saciado? Como preencher o vazio da vida de cada um?

    Nos tempos atuais, de um sistema capitalista veloz e voraz, o que é necessário para que a existência faça sentido, para que as relações entre pessoas ou coisas, ou mesmo pessoas como coisas, façam algum sentido? Como contornar a falta que alimenta incessantemente o desejo de satisfação?

    Quem é que pode se dizer livre diante de tantas dívidas adquiridas por um dos maiores objetos de desejo, os cartões de crédito? Crediários… Mil vezes sem juros que ao invés de dividir, multiplicam seres acorrentados?

    Vive-se uma velha nova era: a da escravidão pelo consumismo.

    O ato de comprar e consumir vem bordado de ilusões fugazes de felicidade. O apelo das vitrines chama os mais fracos, desinformados ou manipuláveis como quem diz: “Sei que me quer. Desarme-se e contemple o meu encanto. Compre a beleza que falta em sua vida! Garanto-lhe prazer, satisfação e felicidade imediatas, apesar de momentâneas. Mas não se acanhe, você merece!”.

    Esta é a palavra: momentâneo. O chamariz dos tolos do novo século.

    Milhares de pessoas voltam para suas casas com as sacolas cheias, abarrotadas, gordas de mentiras. Sorriso no rosto, um peito estufado, uma estranha alegria. Mas é como se ainda faltasse alguma coisa… Passado o momento, continuam infelizes, e ao invés de olharem para o próprio vazio escancarado dentro de si mesmas, buraco oco cada vez mais profundo, iludem-se na ideia de que ainda não possuem o necessário, já que o par de sapatos comprado no mesmo dia não veio acompanhado da cor azul petróleo, “O novo preto do mundo fashion”. Mas sim, com ele sim, virá o sentimento de completude!

    Quantos enganos, quantas mentes e corações perturbados, mascarando o vazio inerente à vida na ilusão de que ser feliz é ter, e não ser. Isso já é quase um clichê!

    Um ciclo vicioso. Insatisfatório. Prazer/desprazer: eis a sedutora armadilha do desejo.

    A inversão de valores é contínua e creio que cada vez mais devoradora. Os bens materiais adquiriram um lugar de pedestal na sociedade que, já cega e delirante, não é capaz de se desvencilhar de suas fantasias, da escravidão vendida pelos meios de comunicação, de uma auto-imagem completamente atropelada e confusa, afogada pelas inovações tecnológicas, pelas tendências da moda, pelo carro do ano, pelo que é ditado como vivo.

    Somem-se de si mesmos, consomem o que é palpável.

    As questões pessoais e existenciais não trabalhadas de forma adequada acumulam-se, assim como as divergências e inconclusões morais, socias, familiares, éticas, emocionais, ou seja, tudo o que pode conter possibilidades de colorir a vida.

    Os guarda roupas entupidos de produtos que sequer serão usados, a compulsividade obsessiva ausente de freios, na qual o único limite seria talvez o último pranto de angústia que pudesse despertar para a realidade.

    Consumismo compulsivo. As datas do calendário são as mais venenosas; quem não ganha presente, está praticamente fadado ao sentimento de rejeição.

    A questão é: o que é necessário e o que é supérfluo? Do que é que realmente se precisa para viver? Quais entulhos devem ser olhados de forma atenciosa, os que entopem o espaço externo ou os que amontoam o vazio interno?

    Talvez a questão seja outra: quem faz a diferença na vida de cada um? Enfim, o que realmente faz sentido?

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